Invenção da Paisagem-Memória de Jeane Terra
qui., 20 de ago.
|Casa Seva


Horário e local
20 de ago. de 2026, 11:00 – 13:20
Casa Seva, Alameda Lorena, 1257 - Cs 1 - Jardins, São Paulo - SP, 01424-001, Brasil
Observo que as paisagens desaparecem e ainda assim, permanecem.
É nesse território instável entre apagamento e permanência que debruço minha pesquisa. Em Atafona, diante das casas lentamente engolidas pelo mar, percebo a matéria retornar à terra, e a natureza ocupar as frestas daquilo que um dia pareceu sólido, lembrando que todo pacto entre o humano e a paisagem é temporário.
Mais tarde, nas cidades de Sobradinho, Remanso, Casa Nova, Pilão Arcado e Sento Sé, submersas pelas águas do São Francisco, encontro arquiteturas que reaparecem durante a seca e memórias que sobrevivem ao desaparecimento físico de seus territórios.
A pergunta que me atravessou nesses trabalhos parece ser:
O que permanece de um lugar quando o lugar desaparece?
Em "Invenção da Paisagem-Memória", essa pergunta parece se deslocar. Deixo de observar somente a memória humana depositada sobre territórios ameaçados, para investigar uma hipótese mais profunda: a própria natureza possui Memória.
Em minha recente pesquisa sobre a Memória da Ecologia, me aproximo dos mecanismos silenciosos pelos quais a vida atravessa a devastação: sementes que permanecem dormentes no solo, estruturas subterrâneas capazes de rebrotar depois do fogo, espécies que sobrevivem às águas e organismos que guardam, em sua própria matéria, possibilidades futuras de existência.
A memória, deixa assim de ser, apenas lembrança para tornar-se potência: aquilo que permanece oculto sob a terra não é necessariamente aquilo que morreu, pode ser aquilo que se espera.
A natureza, assim como a obra, parece trabalhar por fragmentos. Uma semente, uma raiz, um broto, uma matéria aparentemente inerte podem conter a possibilidade de outra paisagem. Há anos venho recolhendo vestígios, imagens, escombros e matérias de territórios em desaparecimento para produzir novas formas, a natureza não restitui exatamente aquilo que existiu: ela reorganiza seus vestígios e inventa outras maneiras de continuar.
Toda paisagem contém outras paisagens, aquela que existiu, aquela que foi destruída, aquela que sobrevive silenciosamente e aquela que ainda poderá existir.
E o trabalho nasce dessa sobreposição entre tempos.
A paisagem é memória porque guarda vestígios daquilo que aconteceu, mas é também invenção porque jamais retorna igual.
A resiliência da natureza não apaga a violência da ação humana, ao contrário, torna ainda mais evidente aquilo que colocamos em risco. Depois de olhar para as casas engolidas pelo mar e também para as cidades que emergiam temporariamente das águas, dirijo agora meu olhar para aquilo que acontece depois da catástrofe: uma natureza que carrega a memória da destruição e, a partir dela, encontra maneiras de tornar o futuro novamente possível.
Jeane Terra
Agosto, 2026



