top of page

Modos de (co)existir

qui., 07 de mai.

|

Casa Seva

Artista: Mariana Fogaça

Modos de (co)existir
Modos de (co)existir

Horário e local

07 de mai. de 2026, 19:00 – 06 de jun. de 2026, 23:00

Casa Seva, Alameda Lorena, 1257 - casa 1 - Jardins, São Paulo - SP, 01424-001, Brasil

Modos de (co)existir


A produção da artista multidisciplinar Mariana Fogaça se aproxima da universo ambiental como experiência de relação. Mais do que representar um ambiente por meio de imagens, seus trabalhos investigam a existência como coexistência — um campo onde tudo se constitui em relação e onde nada permanece fixo. O que está em jogo não é apenas a forma da natureza, mas principalmente o seu movimento: um sistema vivo em constante renovação, onde cada elemento depende do outro para seguir. Nesse sentido, sua pesquisa encontra ressonância nas investigações do neurobiólogo vegetal Stefano Mancuso, que descreve as plantas como seres profundamente interconectados, organizados por redes de troca, comunicação e dependência mútua. A floresta, assim, se apresenta como uma trama contínua, uma rede em fluxo, onde vida e transformação são indissociáveis.


Suas reconhecíveis fotografias, construídas para esta exposição a partir de sucessivas incursões da artista na Mata Atlântica, são compostas por sobreposições de cenas do mesmo território. Não se trata de um registro único, mas de um acúmulo de instantes que se infiltram uns nos outros. Ao intervir sobre essas camadas, Fogaça revela a instabilidade constitutiva do próprio ecossistema. O que emerge é um campo em suspensão, em que diferentes momentos da floresta coexistem, como se esse tempo deixasse de ser linear para se tornar espiralar, sempre em recomeço. Essa operação reverbera nas obras têxteis, em que a lógica da imagem se torna matéria. Cada fio depende do outro para sustentar-se, e ao ser tensionado ou desfeito, não produz apenas ruptura, mas reorganização. Há aqui uma continuidade entre meios: o que na fotografia se apresenta como camada, no tecido se manifesta como estrutura tangível.


É, no entanto, nas cerâmicas — apresentadas pela primeira vez — que o trabalho encontra um outro regime de transformação. Se antes havia sistemas a serem tensionados, aqui há corpos em formação. As peças, próximas do biomorfismo, não se fixam entre o vegetal, o mineral ou o anatômico, mas habitam uma zona de metamorfose contínua. São formas que parecem carregar a memória de rochas, ossos, troncos ou fósseis — corpos mais-que-humanos, atravessados por tempos profundos. A argila, longe de ser um suporte passivo, responde ao gesto, guarda sua marca, desvia o controle. Nesse sentido, as cerâmicas aproximam-se daquilo que Gaston Bachelard reconhecia como a potência imaginativa da matéria. Em seus escritos sobre a terra, o filósofo sugere que a argila não é apenas aquilo que se molda, mas aquilo que também molda quem a toca. Nas mãos da artista, o fazer deixa de ser execução e se torna negociação: acompanhar o tempo da matéria é aceitar que a forma nunca é inteiramente prevista.


Esse deslocamento se expande no espaço expositivo da Casa Seva. A tridimensionalidade, já insinuada nas fotografias, torna-se experiência direta: o corpo do espectador é convocado a circular, contornar, desviar, aproximar-se. A percepção passa a envolver o corpo como um todo. A exposição propõe uma desaceleração: um convite ao olhar demorado, à atenção aos detalhes, como quem adentra a mata e precisa reaprender a caminhar.


A projeção proposta pela artista, por sua vez, tensiona esse campo ao operar entre revelação e limite. A imagem, refletida e projetada, se divide: uma parte se forma, outra escapa. O espelho, o projetor e o dispositivo permanecem visíveis, expondo a construção desse corpo tecnológico que emite natureza. O que poderia se apresentar como portal se revela também como recorte — um acesso parcial, mediado, nunca completo. O desfoque intensifica essa condição. Essa distância pode ser lida como sintoma de um mundo onde a relação com a universo ambiental se torna cada vez mais mediada, fragmentada e incerta.


Ao atravessar fotografia, tecido, cerâmica e projeção, Mariana Fogaça constrói um campo onde tudo está em movimento. As imagens se formam e se desfazem, os corpos se transformam, as relações se reorganizam. O que se apresenta é um estado de coexistência em fluxo contínuo. Se algo persiste, não é a imagem da floresta, mas a percepção de que ela existe como relação viva — instável, interdependente. E que toda tentativa de fixá-la — seja pela fotografia, pela matéria ou pelo pensamento — não a revela por completo, mas reforça seu ciclo de transformação.

 

Ana Carolina Ralston

curadora


Compartilhe esse evento

Galeria de fotos

_MG_7923.jpg
_MG_7948.jpg
_MG_7922.jpg

NEWSLETTER

Obrigada!

CONTATO

Alameda Lorena, 1257 -

Vila Modernista, Casa 1

São Paulo, Brasil - 01424-001

Tel: +55 (11) 94445-9595

© 2024 Casa Seva - Casa Carolina Pileggi LTDA

bottom of page