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Leva tempo, mas dar tempo

O trabalho das Irmãs Gelli se organiza a partir da insistência do fazer diário. Um tempo feito de repetição e presença cotidiana, no qual o processo não é meio para um fim, mas matéria do próprio trabalho. Ao longo de cinco anos de prática conjunta, Alice e Gabi desenvolveram uma metodologia baseada na experimentação, na paciência e no acolhimento do acaso. É nesse regime de tempo dilatado que a cera, material geralmente associado à transitoriedade e ao descarte, ganha centralidade em sua pesquisa, capaz de reter camadas e incursões.

 

O novo conjunto de obras apresentado na Casa Seva marca uma inflexão na trajetória das artistas. Se antes a cera aparecia em placas maciças e lisas, orientadas por maior controle e rigor geométrico, agora o trabalho se constrói pela sobreposição orgânica de camadas, por despejo ou submersão, formando uma estratigrafia quase pictórica que acolhe ao inesperado. Como os anéis do tronco de uma árvore, essas camadas são testemunho do tempo depositado na feitura da obra. Revelam também os acasos do percurso, por vezes acolhidos e incorporados, por vezes recobertos e adiados. Ao atingirem um limite satisfatório de camadas, iniciam um movimento inverso. As artistas desbastam, abrem fendas, revelam estratos inferiores, cores e texturas antes ocultas. O tempo se dilata para trás e para frente.

Essas obras encontram na Casa Seva um espaço de ressonância. Inserida em uma vila modernista projetada por Flávio de Carvalho, a casa parece também viver esse tempo dilatado, acumulando camadas de uso, sentido e memória. Arte e sustentabilidade constituem, de forma inseparável, os pilares da Casa Seva. É nesse cruzamento que o trabalho das Irmãs Gelli se insere, em afinidade com uma programação que articula prática artística e responsabilidade ambiental.

 

A sustentabilidade, aqui, não se limita à escolha de materiais — como a cera vegetal, o plástico reciclado ou a possibilidade constante de derretimento e reúso — , mas se manifesta sobretudo como sustentabilidade das relações. Uma preocupação fundamental quando se trabalha em duo, mas que as artistas estendem à relação entre as obras, com o espaço que as abriga, com o mundo ao redor e, de forma generosa, com o público. Dessa maneira, muitos dos trabalhos aqui expostos convidam ao toque, à interação, à permanência como exercício de presença.

A instalação performática que nomeia a exposição torna isso particularmente evidente. Localizada ao fundo do espaço, a obra é ativada pelas artistas através do derretimento da cera que, ao gotejar, constrói uma espécie de estalactite. Na natureza, essa estrutura é capaz de esperar pacientemente um derramamento de gota que a faz crescer 1 cm a cada 100 anos, lembrando-nos mais uma vez de um tempo que nos excede.

Leva tempo, mas vai dar tempo funciona como mantra e convite. Se para as artistas, a frase reafirma a paciência e a confiança na feitura das obras, para o público ela é um chamado a desacelerar e permanecer, em um tempo que se constrói camada por camada.

 

Catalina Bergues

Curadora

Sem título, 2025

Cera maciça

60 x 89 x 3 cm

R$ 32.000,00

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Alice e Gabi Gelli são irmãs, artistas e cariocas. A pesquisa da dupla se debruça sobre a perspectiva do encontro, da troca e da materialidade do tempo, diante do excesso de virtualização da vida. Há um desejo em direção ao olho no olho e ao impacto da obra de arte sobre os corpos. Antes de se tornarem Irmãs Gelli, Alice e Gabi desenvolveram seu trabalho em trajetórias individuais, que hoje complementam a poética da dupla. Nos últimos anos, juntas, realizaram exposições individuais em espaços como Centro Cultural dos Correios (Rio de Janeiro, 2024); Galeria Brisa, em parceria com Daniel Mattar (Lisboa, 2024) e Lurixs (Rio de Janeiro, 2023). Participaram de exposições coletivas no Brasil e no exterior como “Trame di memoria” (2025), durante a Semana de Design de Milão; pop-up “Bleu” (2023), em Paris, com a Bianca Boeckel Galeria; “Gavetas, cofre e armários (2022), com curadoria de Mario Camargo, no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro; Ocupação Oasis (2021), no Rio de Janeiro, entre outras. Em 2022, realizaram projetos inéditos para o Jaguar Parade, em São Paulo e em Nova York, vinculado à preservação do ecossistema das onças na América Latina. Além disso, foram selecionadas em 2025 para integrar a VII Bienal do Sertão, que ocorreu em Minas Gerais, e em 2026 apresentam a individual em São Paulo.

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